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Contradição no depoimento dos PMs fez juiz dispensar testemunhas e absolver Lucas Bispo da Silva, 19 anos; ‘sempre soube que ia dar tudo certo’, diz irmã

Lucas, 19 anos, ficou 38 dias preso sem provas e sua família fez festa quando ele saiu do CDP de Guarulhos, no dia 20 de janeiro | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

O cabeleireiro Lucas Bispo da Silva, 19 anos, ficou 38 dias preso por um crime que não cometeu. Nesta quinta-feira (5/3), a Justiça de São Paulo reconheceu que Lucas é inocente e absolveu o jovem da acusação de roubo de uma moto. O crime aconteceu na avenida Comandante Taylor, na região do Ipiranga, zona sul de São Paulo, às 7h30 do dia 13 de dezembro de 2019.

No dia 18 de janeiro, a Justiça havia concedido liberdade provisória ao jovem, quando o desembargador considerou que a versão dos PMs que prenderam Lucas era contraditória quando comparada com a versão contada pela vítima.

A família do jovem sempre afirmou que ele era inocente. No momento do crime, Lucas estava dormindo em sua casa, na favela do Heliópolis, também na zona sul da capital paulista. Depois de 38 dias preso, a família fez uma grande festa quando Lucas voltou para casa no dia 20 de janeiro.

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A vítima não compareceu na audiência do caso nesta quinta-feira (5/3), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da cidade. Somente os PMs foram ouvidos e o juiz Rodrigo Cesar Muller Valente tomou a decisão de absolver Bispo.

Na sentença, o juiz afirmou que a ação penal contra Lucas era improcedente, uma vez que só havia o reconhecimento pessoal do dia da prisão e que, a própria vítima, não confirmou tal reconhecimento em outra ocasião.

O juiz também destacou, na sentença de absolvição de Lucas, que o Ministério Público de São Paulo já havia apontado para insuficiência de provas para condenação, mesma tese da defesa de Bispo.

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“Conclui-se que os policiais não confirmaram a narrativa inicial do flagrante, pelo contrário, ensejaram fundadas dúvidas sobre as circunstâncias da apreensão da motocicleta roubada e posterior abordagem do réu em seu local de trabalho”, disse o juiz no documento.

A Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio teve um papel fundamental no caso de Lucas. “Fizemos um trabalho bom junto com o MP. Aproveitamos a boa relação com eles e colocamos a Gabriela, irmã do Lucas, em contato. O MP que viu que tinha contradição no depoimento da vítima e dos PMs”, disse Marisa Fefferman, integrante da Rede.

A analista comercial Gabriela Bispo da Silva, 23 anos, irmã de Lucas, contou como foi receber a notícia de que o irmão estava absolvido. “É uma sensação maravilhosa. Estava na sala com as outras testemunhas quando o Lucas foi chamado pelo juiz”, narrou.

“Depois de um tempo, uma mulher chamou o nome de todas as testemunhas e falou que o juiz não ia escutar a gente porque o Lucas tinha sido absolvido. Quando ela falou isso, eu comecei a gritar, chorar muito”, comemorou.

A irmã conta que os policiais militares entraram em contradição durante o depoimento e o juiz entendeu que não precisava ouvir mais ninguém para tomar sua decisão.

Desde o momento que foi solto, Lucas voltou ao serviço na barbearia que trabalhava antes de ser preso. Mas ele quis ir além: alugou um espaço e decidiu montar o seu próprio negócio.

Gabriela conta que o irmão estava tranquilo, mas ficou ansioso só na manhã desta quinta-feira com a audiência. “Ele ficou deitado, sem acreditar que o dia tinha chegado. Mas eu falei que ia dar tudo certo”.

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