Outras Palavras

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Foi
preciso a China adoecer, em passagem para a celebração do Ano Novo,
para, aos poucos, surgir a percepção da elevada temperatura das
relações de interdependência financeira, comercial, tecnológica e
social que temos, enquanto países, da China.

A sinofobia manifestou-se, em primeiro plano, nas preocupações
com as cifras, com as bolsas de valores, com os danos e fissuras
monetárias. Seguiram-se críticas à construção de um hospital
colossal em tempo recorde (aos olhos do ocidente acidental), e depois
palpites em relação às medidas de quarentena. Tardou o olhar
humano para a China, a oferta de qualquer apoio de solidariedade, que
eventualmente acabou por surgir, antes que fosse tarde.

[...]

A epidemia se alastrou aos meandros mais sutis dos desavisados –
nem todos percebiam, até então, a dimensão da presença chinesa no
seu cotidiano. A noção foi-se alterando, passando das camadas dos
atingidos pelo “Made in China”, ou seja, todos aqueles
consumidores de componentes, produtos, peças e artefatos que o país
produz sem a tecnologia de ponta, chegando e afetando também os que
consomem o “Created in China”, a produção desenvolvida com
tecnologia chinesa e que abastece o mundo – as montadoras de
automóveis, de celulares, de placas solares, as indústrias e
fábricas em geral, que deixaram de conseguir entregar o produto
final em função da paralisação da exportação. Com o país em
quarentena, sem conseguir fabricar, deixaram de importar.

Em Madrid, a ausência da China levou ao cancelamento da maior
feira de exibição de telefonia – sem a presença do país o
cenário se esvaíra. Na Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim, a
indústria cinematográfica evidencia a força da influência da
China – 118 empresas chinesas cancelaram a sua presença. E o mesmo
aconteceu com a Suécia, Malásia, Japão, Suíça, Taiwan,
Uzbequistão, que também não vão. E não se trata de ficção.

Realidade: já não se vive sem a China. Este ímpeto da presença
e das conquistas chinesas são essenciais, ensinam-nos, através da
crise, o valor daquilo que é invisível aos olhos. Os chineses
superaram a SARS, em 2003, e estabeleceram-se manifestações de
afeto público como legado – foi após o período de quarentena de
inverno a que os estudantes foram submetidos que desabrocharam pelas
ruas da capital de mãos dadas e beijinhos na face.

Em tempos mais remotos, 1899, Pequim sofreu com a epidemia de
malária. Acreditava-se que a cura podia acontecer com sopa de pó de
osso de dragão, pura mitologia para, na teoria, sugerir a ingestão
de escápulas de boi e de partes internas da casca de tartaruga. A
busca pelos cascos e as escavações levaram à origem das
adivinhações, aos ossos-oráculos, encontrando-se um novo sítio
arqueológico na cidade de Anyang, na província de Henan.

A China ensina, se regenera na própria tradição, se reinventa,
mesmo com uma população de mais de um bilhão. Os ossos-oráculos
do século XXI provavelmente trarão uma nova concepção em relação
ao modo como nos passaremos a relacionar com este país.

Os métodos, percalços e desafios que a própria nação terá de
enfrentar em relação a questões como a disseminação de dados, de
informações na conjuntura nacional e internacional, de modo a
amadurecer e assumir o seu papel de protagonismo nesta Era de maior
influência oriental, são fundamentais.

É fundamental a construção da sua imagem no século XXI,
condizente com a sua autoprojeção de liderança, de Império do
Meio, entretanto saindo da centralidade. A China precisa assumir o
seu protagonismo e os seus desafios. Sim, a China, esse país
milenar, habituado a caminhar o caminho do meio  – LaoZi
老子,
filósofo, velho mestre, cuja premissa filosófica estabelece a sua
virtude, através de sua manifestação de mundo na via do mundo do
que há de mais profundo na realidade.

Em miúdos, o país e sua população tinha a consciência
histórica e um profundo sentimento nacionalista o descompasso se
dava na comunicação, no expressar deste patriotismo desmedido ao
mundo cá de fora.

Os chineses partem da premissa de que também os outros conheçam
a grandeza do seu legado. Há ainda as próprias adaptações
geracionais, ou seja, para aos antigos prevalece o comportamento ou a
postura de modéstia diante da sabedoria, do conhecimento, a cultura
do 哪里
哪里( nălı nălí – resposta que se dá
quando se recebe um elogio, por exemplo, e que traduzido à letra
pode significar “é muito generoso da sua parte”). Já os
millenialls, o contrário, a exacerbação das próprias
qualidades, a autopromoção, o dizer muito, a eloquência.

Para ser acolhida, a China precisa de ser entendida nos momentos
de crise e de fragilidade. Se isso não acontecer, continuaremos a
ampliar a distância, a não compreensão. Não se trata de uma
leitura simples, em especial tendo em conta a ainda muito presente
supremacia das ideias e formação intelectual, artística, acadêmica
europeias e anglo-saxônicas.

O sinofuturismo, esse movimento de compreender e reconhecer a
presença da China como país de liderança e que dita as direções
no cenário internacional atual, se aproxima latente e presente,
impactando nas redes – redes de pessoas, redes sociais, de
relacionamentos e transações transnacionais. A impactar e pontuar
também em nós está o modo de operar chinês neste nosso tempo,
nesta segunda fase da revolução tecnológica.

A quarentena chinesa é um tempo de repouso para que o mundo
consiga respirar e se alinhar com o que já é a realidade no país.
É curioso que tenham precisado de se mascarar para assim fazer o
mundo notar o tamanho da intoxicação em pejorativos, em
manifestações de racismo (oriental) e em antigos e ultrapassados
achismos a que o ocidente se habitou a acreditar. A China é uma
potência mundial, mas foi preciso mostrar-se frágil para evidenciar
a sua força.

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