Outras Palavras

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Por
Roberto Rafael Dias da Silva

Eu tenho agora meu próprio ritmo – respondeu Franklin
também reprovo mais do que antes o que é apressado
(Sten Nadolny)

O livro A descoberta da lentidão, do romancista alemão Sten Nadolny, traz como centro a história do navegador e pesquisador John Franklin que realizou missões de exploração no Ártico em meados do século XIX. O personagem era caracterizado por sua dificuldade em aprender na escola devido a sua lentidão. Entretanto, quando conseguia desenvolver alguma aprendizagem a realizava com profundidade, encontrando detalhes e percebendo nuances não verificadas pela maioria das pessoas. A sua percepção dos detalhes, com calma e apreço pela atividade desenvolvida, conduziu-o ao mar. Como navegador, explorador do Polo Norte, Franklin descobriu a lentidão e permitiu-se, na bela narrativa literária, assumir outros modos de pensamento.

[...]

Uma
das circunstâncias narradas no livro de Nadolny diz respeito ao
encontro do navegador com Charles Babbage, um inventor da Londres do
século XIX. Babbage apresentou a Franklin sua gigantesca máquina de
calcular que trabalhava ininterruptamente produzindo tábuas de
algoritmos e tabelas náuticas. O inventor descrevia seus novos
conhecimentos enquanto Franklin o interrompia para compreender seu
raciocínio. Após um determinado período, o navegador o interrompe
estabelecendo o diálogo abaixo.

Quando Franklin compreendia alguma coisa meditava sobre o assunto com suas próprias ideias.

– Não. A máquina tem limites – disse ele para irritação do inventor. – Ela só pode calcular aquilo que é encontrável com as perguntas dirigidas, portanto as respostas “sim” ou “não”.

Ele contou a respeito dos esquimós e da impossibilidade de se aprender alguma coisa de novo através de perguntas alternativas.

– Sua máquina não pode se espantar e não pode cair em confusão, portanto também não pode descobrir nada de estranho. O senhor conhece o pintor Willian Westall? – Babbage nem ouvira a pergunta.

– Para um homem do mar o senhor pensa extraordinariamente rápido! – disse ele com voz abafada.

– Não, eu penso com esforço – respondeu Franklin – mas nunca interrompo o pensamento. O senhor conhece muito pouco a gente do mar (STEN, 1990, p. 229).

Tomando
esta trama literária como contraponto desta reflexão podemos
considerar que nos processos contemporâneos de escolarização há
pouco espaço para a dúvida, para a controvérsia e para a lentidão.
A cultura do novo capitalismo, bem descrita por Richard Sennett,
conduziu-nos a uma centralidade do curto prazo. Mais que isso, a
meritocracia – e todos os demais modelos de estratificação das
performances – converteram-se nos arranjos institucionais
predominantes, condição esta que a escola contribuiu para difundir.
A produção de práticas curriculares na atualidade, especialmente
nos espaços formativos destinados às juventudes, tem sido
caracterizada por uma pressão permanente, qual seja: potencializar o
desempenho acadêmico em exames de larga escala e intensificar a
capacidade inovadora dos professores e das instituições. Tanto nas
redes públicas, quanto nas redes privadas, os currículos escolares
são impulsionados a produzir excelência acadêmica por meio do uso
de métodos inovadores. Em minha percepção, esta dupla
racionalidade pedagógica – de maneira compulsória – impõe aos
profissionais da educação a responsabilidade de responder
apressadamente a este duplo imperativo. Isto é, em comum entre a
pressão por desempenho e a compulsão por inovar podemos reconhecer
a impaciência na obtenção de resultados.

Para
aqueles que cotidianamente experimentam suas existências nas escolas
brasileiras, uma nova gramática é colocada em ação. Velocidade,
agilidade, presteza, celeridade e rapidez (e a palavra da moda:
assertividade) tornam-se imperativos para as mudanças educativas em
tempos de capitalismo impaciente. Uma lógica urgentista e pragmática
– com foco na rentabilidade máxima – tende a direcionar os
sentidos dos fazeres escolares de nosso tempo. Como sugeri na obra
Customização
curricular no Ensino Médio
, com o advento do neoliberalismo
(e os sistemas explicativos que dele se derivam) as escolas têm sido
interpeladas a privilegiar performances customizadas e a operar em
alta rotação.

Todavia,
a formação humana ocorre em tempos e espaços diferenciados –
como a metáfora proposta por Nadolny nos sugere –, por pessoas
singulares e que reagem de modos distintos às experiências e
saberes ofertados pela escola. Em tais condições, esboça-se
internacionalmente uma defesa das pedagogias lentas – uma apologia
a um movimento de “slow school experiencie”. Duas características
merecem destaque neste momento. A primeira delas é o reconhecimento
de que a educação é uma atividade lenta, conforme apregoa Joan
Domènech. Com isso, precisamos sinalizar que o tempo precisa ser
devolvido para a infância e a adolescência, assim como é oportuno
lembrar que uma educação lenta é parte central de um trabalho de
efetiva inovação educativa. A segunda característica, extraída do
diálogo com Nuccio Ordine, trata-se de uma resistência ao
utilitarismo hoje predominante. Afastando-se da lógica da
mercadoria, consideramos prudente seguir ensinando aquilo que, por
muitos, é tomado como “inútil”. Explica o filósofo italiano
que os saberes que não têm
uma finalidade em si mesmos “podem desempenhar um papel fundamental
no cultivo do espírito e no crescimento civil e cultural da
humanidade”. Pela interlocução com a obra de Sten Nadolny,
gostaria de acrescentar:
construir uma educação pós-capitalista passa pela redescoberta da
lentidão!

Referências:

SILVA,
Roberto Rafael Dias da. Customização
curricular no Ensino Médio
:
elementos para uma crítica pedagógica. São Paulo: Cortez, 2019.

STEN,
Nadolny. A
descoberta da lentidão
.
Rio de Janeiro: Rocco, 1990.

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