Outras Palavras

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Os
grandes meios de comunicação praticamente não falam de outra
coisa. Afinal, o quadro de risco grave na saúde pública mundial não
pode ser desprezado de modo algum. Depois de o fenômeno do
coronavírus ter ultrapassado os limites da cidade de Wuhan, na
província chinesa de Hubei, o surgimento de novos casos se dá em
ritmo geométrico e alcança praticamente todos os cantos do planeta.

Em
nossas terras, a identificação de novos casos suspeitos também
cresce em escala assustadora, mas boa parte deles ainda estão sendo
descartados logo após a realização dos primeiros exames de
laboratório. O fato concreto, porém, é que o surgimento dessa nova
epidemia recoloca no centro do debate alguns dos elementos essenciais
da política levada a cabo pelo governo Bolsonaro.

[...]

As
propostas de destruição do Estado e de desmonte das políticas
públicas de natureza social e inclusiva batem de frente com as
necessidades apontadas por onze em cada dez especialistas ouvidos no
tema. Quando se trata de resolver problemas de saúde não existe
essa estória de buscar a solução nas “livres forças de
mercado”. Não passa pela cabeça de ninguém sério e responsável
a espera pela conjunção mágica de oferta e demanda que apresente
as possibilidades de como se lidar com o risco da epidemia
globalizada. Não há possibilidade da descoberta rápida da vacina e
outros meios de evitar o contágio que se assente apenas na livre
iniciativa do capital privado.

Setor
privado e saúde pública?

Para
desgosto dos nossos liberalóides de botequim, aqui eventos como esse
do Covid-19 se solucionam graças à competência e ao conhecimento
acumulados há décadas pelo nosso sistema público de saúde. No
Brasil, esse tipo de epidemia se combate com aplicação de altas
doses de SUS na veia. E ponto final. O único agente capaz de
resolver mais essa crise e impedir a propagação descontrolada de
mais essa doença é o Estado. Essa lengalenga da suposta
superioridade da eficiência do setor privado só vale na hora
calcular os polpudos lucros obtidos por meio da mercantilização da
saúde. Já quando se trata de processos de alta complexidade ou de
saúde pública, aí é melhor mesmo chamar as instituições
estatais para resolver os problemas.

Sequenciamento
genético do vírus, pesquisa e descoberta de vacinas, pulverização
da rede de atenção primária de saúde, aplicação de medidas
preventivas e tantas outras formas de manifestação das políticas
de saúde pública estão sofrendo na carne as consequências
desastrosas da política criminosa da austeridade fiscal orquestrada
por Paulo Guedes. O superministro parece entrar em êxtase a cada vez
que anuncia mais alguns bilhões de cortes no orçamento das rubricas
de programas sociais do governo. Depois de reservar o quinhão
ilimitado para o cumprimento das despesas financeiras com o pagamento
de juros da dívida pública, o passo seguinte é cortar, cortar e
cortar. E lá se vão transformados em pó os recursos para saúde,
educação, ciência e tecnologia, entre tantos outros.

E
agora o mote dos admiradores incondicionais do financismo é criar o
bode expiatório do momento. O coronavírus é a excelente
oportunidade para oferecer mais uma desculpa para incompetência da
equipe econômica. Afinal, o Paulo Guedes é um cara supereficiente e
profissional. Mas infelizmente ele não está conseguindo cumprir com
promessas que ele espalhou aos quatro cantos por motivos alheios à
sua vontade. Em 2019, foi por conta das trapalhadas do núcleo mais
ideológico de Bolsonaro e também por culpa do Congresso Nacional.
Boicotaram o avanço da agenda de Guedes no legislativo. E daí o
crescimento do PIB foi pra lá de pífio. O discurso dos arautos do
financismo é tão convincente, que a gente até fica com pena do
Guedes, coitadinho…

A
culpa não é do covid 19!


o blábláblá para o provável fiasco que se desenha para 2020
começa a ser fundamentado no Covid-19. Basta olhar as páginas de
economia dos jornalões para perceber a construção paulatina da
narrativa: a estratégia é isentar Guedes de toda e qualquer
responsabilidade por não ser atingido o crescimento do PIB que o
governo tanto divulgou.

Para
esse pessoal pouco importa o fato de a política econômica estar
baseada em uma submissão completa e absoluta aos interesses do
capital internacional. E aqui vale um breve parênteses. É preciso
reconhecer que essa inexplicável conversão ao credo neocolonialista
vem de antes, bem antes. Esse mérito não é todo de Guedes, não.
Mas ele gostou do modelo e aprofundou essa tendência que vem nos
transformando há muitos anos em país mero exportador de produtos
primários e de baixo valor agregado. E, para completar o serviço,
está dando total continuidade ao processo de desindustrialização
da economia brasileira.

Ora,
sob tais circunstâncias, o Brasil fica sem nenhuma margem de manobra
para buscar alternativas de sobrevivência face a uma crise
internacional. A dependência absoluta frente à China nos converte
em reféns dos efeitos do coronavírus. Ao nos consolidarmos como
exportadores das “commodities” para lá, aceitamos as regras do
jogo e nos submetemos às variações de humor do gigante oriental.
Ao nos conformarmos com a condição de dependência absoluta da
vinda de capitais chineses para nossos projetos de infraestrutura,
assumimos o risco de conviver com esse momento difícil.

Mais
um pibinho em 2020

Mas
mesmo assim, os problemas do baixíssimo crescimento de nosso PIB são
outros. As instituições multilaterais já começam a refazer para
baixo seus cálculos das perspectivas de crescimento da economia
mundial. A OCED, por exemplo, imagina que a China não atingirá em
2020 os 5,7% previstos inicialmente.
Deverá ficar “apenas” com 4,9%. Com isso, a economia mundial
deverá recuar de 2,9% para 2,4%. Ora, parece evidente que esse
desempenho não pode servir de explicação para o fracasso
previamente anunciado pela própria equipe de Paulo Guedes.

Os
representantes do financismo tupiniquim, consultados semanalmente
pelo Banco Central, vêm também sendo obrigados sistematicamente a
rever suas projeções de desempenho de nossa economia. Afinal, elas
sempre estiveram carregadas de uma forte dose de torcida política e
ideológica em prol de seu queridinho Ministro da Economia. Os mesmos
que asseguravam um crescimento do PIB de 3% para esse ano, agora já
se revelam mais “realistas” com projeções próximas de 2%. E
esse súbito banho de realidade a que foram submetidos tais
“especialistas” não tem nada a ver com a emergência inesperada
do covid19. Trata-se apenas e tão somente da observação de que os
resultados prometidos por Guedes não estão se apresentando como se
esperava.

Os
cronistas dos bastidores da Esplanada dão como provável a saída do
superministro caso não sejam apresentados resultados minimamente
aceitáveis para o desempenho da economia em ano eleitoral. Guedes
teria prometido a Bolsonaro muito mais do que aquilo que está
conseguindo efetivamente entregar. Resta saber se o cinturão
protetor que os meios de comunicação estão construindo em torno de
seu preferido será capaz de convencer o presidente a adiar mais uma
vez sua exoneração.

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