Outras Palavras

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Em uma tarde quente de quarta-feira, José entra de camisa vermelha,
chapéu e muleta em uma casa grande na Cohab da cidade de Bezerros,
situada a 100 km de Recife. Ele passa pelo salão principal e se
dirige a uma sala ampla, povoada de pássaros, cactos, sois, bois
voadores, dragões, pessoas e alguns santos. De carnaval a São João,
o sertão nordestino transborda na sala que abarca o mundo inteiro.

Imagem: Alessandra Goes Alves

Borges então
cumprimenta os presentes, senta-se em uma cadeira e pede para ver o
desenho que seu cunhado, Dedé, começou a talhar na madeira. O
senhor de 84 anos olha calmo para a obra ainda em nascimento,
pergunta quando ela ficará pronta e dá algumas sugestões a Dedé.

Localizado na BR
232, o Museu da Xilogravura reúne obras de José Francisco Borges,
um dos mais conhecidos gravuristas e cordelistas do Brasil. Nascido
em Bezerros, o artista J. Borges atuou primeiramente como cordelista
em feiras de rua. Até que, por falta de gravura em seus escritos,
começou a se arriscar no mundo da xilogravura – arte que o tornou
famoso em todo o mundo.

Da pequena Bezerros
para inúmeros museus e galerias de arte no Brasil e no mundo, J.
Borges também ministrou aulas sobre xilogravura e cordel em países
como a França, a Suíça e os Estados Unidos. Além disso, teve sua
obra “Vida na Floresta” incluída no calendário de um encontro
da Organização das Nações Unidas (ONU).

José Saramago,
Eduardo Galeano e Ariano Suassuna (que se tornou amigo pessoal e
padrinho artístico de Borges) foram alguns escritores que tiveram as
gravuras do mestre pernambucano publicadas em seus livros.

Imagem: Alessandra Goes Alves

As homenagens a
Borges tem longa data. Em 2020, ele foi o homenageado pelo Galo da
Madrugada, maior bloco de carnaval do planeta, que trouxe em seu
cortejo o tema “Xilogravuras no Cordel do Frevo”.

[...]

Infância

Nascido em Bezerros,
no Agreste pernambucano, José cresceu em um sítio, onde trabalhou
na roça junto à sua família durante a infância. Ainda menino,
frequentou a escola apenas por dez meses, pois a escola parou de
funcionar após o único professor da instituição se mudar para a
capital pernambucana. 

Esse foi o primeiro
episódio que desenvolveu o autodidatismo de Borges que, além de
ler, aprendeu sozinho a escrever, desenhar e talhar em madeira. Como
na época era muito caro comprar livros, ainda menino ele lia
revistas velhas e o jornal que embrulhava sabão e pacotes de doces.
“Eu lia tudo o que vinha pela frente”, lembra.

Sem cadernos, ele
trocava o lápis por carvão e o papel por pedra. “Era uma pobreza
muito grande, não tinha material para a gente usar”. Em sua casa,
o pai era o único que sabia ler, mas o trabalho na roça não lhe
deixava tempo para ensinar os nove filhos a decifrar as letras.

Borges ficou em
Bezerros até os 17 anos, quando a seca obrigou ele e sua família a
migrar para a Zona da Mata pernambucana. Após 15 anos, ele retorna
já casado para sua cidade natal, onde mora há mais de 50 anos.
“Aqui era mais viável para o meu trabalho, a cidade tinha feira
quase todos os dias”, explica o artista .

O mundo do cordel

Imagem: Alessandra Goes Alves

A entrada de Borges
no mundo da xilogravura se deu a partir do cordel. Apreciador dessa
literatura, ele ouvia as histórias contadas pelo cordel ainda
criança, no sítio onde a família morava. “Ali não tinha rádio
nem TV nem cinema nem nada. Só tinha cordel. A gente lia 2 ou 3
histórias antes de dormir. Me apaixonei.”

A partir daí, ele
começou a comprar e vender cordel. E, aos 21 anos, escreveu um.
“Mostrei para um amigo. Ele gostou, mas eu não tinha dinheiro para
fazer um milheiro (mil cópias), que custava uns 500 cruzeiros.” O
amigo então emprestou metade do dinheiro e disse para Borges
devolvê-lo após a impressão. “Vendi rápido e parti para
escrever outro”, conta.

Mas, diferentemente
do primeiro cordel, Borges não tinha nenhuma gravura emprestada para
o segundo. A falta de dinheiro para comprar uma gravura foi o que o
fez adentrar o mundo da xilogravura. “Peguei a madeira, risquei e
cortei, fui fazendo todos os detalhes. Levei para a gráfica, eles
imprimiram e vendi rápido. Do terceiro cordel em diante, não pensei
mais e comecei a fazer as gravuras.”

Você sabe
quem escreveu esse livro?”

Os muitos
cordelistas que circulavam na década de 1970 se tornaram os
primeiros clientes de Borges, que cobrava 5 cruzeiros por cada
gravura. Com o tempo, ele foi aperfeiçoando o seu desenho e o corte
na madeira. “Até que chegou ao ponto de vir gente do Rio de
Janeiro e fazer encomendas para galerias de arte na cidade”, lembra
ele.

Foi em galerias de
arte do Rio de Janeiro que o trabalho de Borges ficou conhecido pelo
escritor e teatrólogo Ariano Suassuna. “Ele viu o meu trabalho e
perguntou quem era o fera que tinha feito aquilo. Ele estava muito
precavido por causa da ditadura, mas disse que queria me conhecer”,
conta Borges, sorrindo.

Na época, Suassuna
trabalhava na reitoria da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE),
onde recebeu Borges. Na conversa, o escritor perguntou se o
xilogravurista conhecia o livro “A Pedra do Reino” e se sabia
quem o tinha escrito. “Eu respondi que não, que e vinha do
interior e não tinha o hábito de ler livro.”

Suassuna então
contou ser o autor do livro e mostrou um exemplar para Borges e disse
que ele havia escrito. Ele disse que parecia que eu tinha lido,
porque uma das minhas gravuras (“Caçador de Onça) mostrava
exatamente uma das cenas do livro”, conta.

Suassuna então
publicou uma gravura de Borges nesse livro, fazendo nascer a parceria
(artística e pessoal) que marcou vida de ambos. “Dei entrevista a
um canal de televisão na terça-feira. No sábado, já tinha um
monte de gente na minha porta, querendo comprar o meu trabalho. Nunca
mais tive sossego.”

Das feiras de
Bezerros para o Museu do Louvre

Se nos anos 50 o
cordel era chamado de “coisa de preguiçoso e vagabundo, hoje essa
literatura ganha cada vez mais espaço e reconhecimento em escolas e
universidades. “Muita gente boa saiu porque existia preconceito.
Mas eu bati na tecla de que eu não estava fazendo nada de errado.”
Por 20 anos, J. Borges trabalhou como ambulante, vendendo cordel.
“Tenho saudades dessa fase até hoje. Dos lugares que conheci, dos
amigos que fiz, das namoradas que arranjei”, conta.

“Toda a vida, o
cordel ensinou. É ilustração, instrução, diversão e jornalismo,
porque informava o que acontecia no sertão. Hoje, ele ensina os
professores e intelectuais. O cordel nunca cai, é uma miscelânea”,
avalia Borges.

Se antes de vender
cordel ele já havia trabalhado como pedreiro, carpinteiro,
marceneiro, pintor de casa e ido para a lavoura de cana, foi com essa
literatura que Borges aprendeu a viver tranquilo, perdoar e defender
aquilo em que ele acredita. “Nas feiras, às vezes tinha gente que
vinha pra brigar. O cordel me ensinou a passar de lado pelo ruim, a
ter paciência para deixar essas pessoas passarem. Isso aconteceu
muito na minha vida social, artística e pessoal”, conta o artista,
com a prosa poética do Agreste.

Após o
apadrinhamento de Suassuna, que considerava Borges um mestre da
cultura popular nordestina, a obra do artista conquistou novas
galerias no Brasil e no mundo. Suas xilogravura atravessaram
fronteiras e chegaram a dividir espaço no Museu do Louvre, um dos
maiores do mundo, com artistas como Leonardo da Vinci e Renoir.

Museu da
Xilogravura

Imagem: Alessandra Goes Alves

Criado em 2003, o
Museu da Xilogravura – Memorial J. Borges reúne inúmeras obras do
artista. Além dos cordéis escritos por Borges, cerâmicas,
camisetas, canecas e quadros, o museu abriga matrizes em madeira que
servem de base para as gravuras que são impressas no papel.

Nos fundos do museu,
existe uma área destinada à oficina de carpintaria e ao depósito
de madeira. Os visitantes podem ver cada uma das etapas de produção
das xilogravura – desde a confecção do desenho na Madeira, o seu
corte, a pintura da matriz, a impressão no papel e os retoques com
tinta que dão o acabamento final à gravura.

O trabalho de Borges
não é solitário, o que fica evidente pela quantidade de mesas,
cadeiras, pincéis e potes de tinta presentes na oficina. Alguns de
seus filhos também tem obras autorais expostas no Museu, como é o
caso de Pablo Borges.

Além dele, o museu
tinha pelo menos seis pessoas trabalhando na confecção de novas
peças no dia em que foi visitado pra reportagem. Além da oficina, o
museu também tem uma loja com peças para venda. Antes de entregar
gravuras compradas por visitantes, Borges assina cada uma delas com
lápis.

(Des)encontros
com a morte

Imagem: Alessandra Goes Alves

Entre os temas mais
retratados na obra de Borges, está a vida cotidiana dos sertanejos,
a fauna e a flora da caatinga, além de festas populares como o
carnaval, o bumba meu boi, a ciranda e a Folia de Reis. Embora seja
outra temática recorrente na região, que ainda conta com a presença
de carpideiras, a morte não dá as caras na obra de Borges.

Atravessar um tumor
e um enfarto não foram doloridos como a experiência de enterrar
cinco filhos crescidos. O último deles faleceu em 2018, em
decorrência de um enfarto, aos 49 anos. “Não faço mais
xilogravuras sobre a morte, parece que ofendi ela. O pai enterrar um
filho é a pior dor do mundo. Quase endoideci”, conta, com o olhar
sombreado e a fisionomia séria.

Borges não aguentou
e saiu do velório do filho após ver duas cenas: a camiseta do
Náutico sobre o caixão e as unhas do filho com pingos de tinta azul
e amarela. “Ele morreu trabalhando, pintando uma madeira com a
imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quando vi aquilo, me senti muito
triste e revoltado. Precisei sair e só voltei para o enterro.”

Outro (des)encontro
de Borges com a morte aconteceu após uma cirurgia no joelho. Ao
acordar do pós-operatório, uma das enfermeiras contou a Borges que
ele havia passado três horas morto, sem batimentos cardíacos. “Ela
disse que eu estava lá, morto, quando um médico passou e disse que
eu não tinha morrido. Aí eles deram uma balançada no meu peito e o
meu coração disparou”, diz, rindo, em referência à massagem
cardíaca.

Aos 84 anos, Borges
diz com tranquilidade que não tem medo de morrer. “Já morri uma
vez, tenho experiência”, diz, rindo. “Não tenho medo, porque a
morte é natural. Eu tenho medo é de sofrer e fazer meus familiares
sofrerem”, afirma, fitando sério os olhos da repórter.

Dono de uma boa
prosa, o xilogravurista conta que só não pode cumprir uma
recomendação. “Só não quero que o médico me proíba de beber
whisky e minha cervejinha, porque daí eu morro mais rápido”, ri o
matuto.

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