Nocaute

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Morreu neste domingo, em Manágua, aos 95 anos, o padre, poeta e guerrilheiro Ernesto Cardenal. Membro ativo da guerra de libertação da Nicarágua e primeiro ministro da Cultura pós-Somoza, Cardenal faleceu em decorrência de problemas cardíacos e renais. Considerado “a voz moral da Revolução Sandinista”, Cardenal morreu dirigindo duras críticas ao governo do presidente Daniel Ortega.

Foi durante as sessões do júri do Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, em 1978, que os brasileiros Chico Buarque, Antonio Callado, Ignácio de Loyola e eu conhecemos Ernesto Cardenal. Tínhamos sido levados, todos os jurados, para um bucólico lugar chamado Baía de Pasacaballos, no interior do país. 

Apenas dois jurados, agitados, quebravam a placidez do nosso retiro: Cardenal, de barba e cabelos brancos, boina preta e batina branca, e o escritor Sérgio Ramirez, também nicaraguense. Membros da direção civil da Frente Sandinista de Libertação Nacional, os dois eram interrompidos várias vezes ao dia para atender a chamadas internacionais com notícias do avanço da guerra contra a ditadura Somoza em seu país.

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Ao cabo de um mês o júri terminou o trabalho e cada um voltou para sua casa. Marieta e Chico, Ana e Callado, Rúbia e eu fomos presos ao chegar ao Brasil (Loyola escapou por milagre), mas essa é outra história. Antes de deixarmos Cuba pedi a Cardenal que me conseguisse contatos para fazer uma reportagem sobre a guerrilha na Nicarágua, tema praticamente ignorado pela imprensa brasileira.

O contato, além do próprio Cardenal, que vivia em São José, na Costa Rica, era Herty Lewites, um nicaraguense de olhos azuis, precocemente calvo, conhecido na guerrilha como “o Tigre Judeu” e que entre 2000 e 2005 viria a ser prefeito eleito de Manágua. Na época Lewites também vivia em São José e operava a divulgação do avanço da guerra para jornais e agências de notícias internacionais. 

Sugeri a pauta ao jornalista Paulo Patarra, editor da recém-nascida (e precocemente morta) revista Repórter3, que pretendia reeditar o sucesso da velha Realidade. O certo é que semanas depois o fotógrafo Geraldinho Guimarães e eu estávamos na Costa Rica, acertando com Cardenal e Lewites a logística do nosso trabalho. 

De lá tocamos para Manágua, onde falamos com gente dos dois lados da guerra e encerramos o trabalho com chave de ouro, entrevistando com exclusividade o chefe do Estado Maior da FSLN, comandante Umberto Ortega, irmão de Daniel Ortega, e, dentro de uma sala blindada, o ditador Anastácio Somoza.

Um ano depois de publicada a reportagem, a Frente Sandinista tomava o poder, jogando por terra uma ditadura familiar que se perpetuava de pai para filho deste 1950. Ao fugir, Anastásio Somoza literalmente limpou os cofres do país. 

A situação de penúria da Nicarágua era tamanha que quando Ernesto Cardenal, já ministro da Cultura do novo governo, realizou uma visita oficial ao Brasil, teve que ficar hospedado no meu apartamento porque seus recursos eram insuficiente para as diárias de hotel – as dele e da escolta de dois policiais federais a que tinha direito como visitante oficial.

Mas Cardenal acabaria se popularizando mundialmente não como poeta ou guerrilheiro. Em visita à América Central, em março de 1983, o papa João Paulo II desembarcou na capital nicaraguense e, na fila de cumprimentos às autoridades locais, no aeroporto de Manágua, diante de jornalistas e câmeras de televisão de todo o mundo, obrigou o ministro da Cultura Ernesto Cardenal a ajoelhar-se a seus pés, no asfalto da pista, e humilhou-o com uma indisfarçável descompostura, de dedo em riste – imagem que horas depois estava sendo vista em todo o planeta. 

Além do sabão público, João Paulo II determinou ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger (que sucederia João Paulo II como Bento XVI) que proibisse Ernesto Cardenal, “a divinis”, de administrar qualquer sacramento. 

Em fevereiro de 2019, quase quarenta anos depois da punição, o papa Francisco absolveu Cardenal “de todas as censuras canônicas a ele impostas”. Quem morreu ontem em Manágua, portanto, não foi apenas o poeta e guerrilheiro, mas também o padre Ernesto Cardenal.

O governo da Nicarágua decretou três dias de luto oficial.

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