Blog do Kennedy

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Os Estados Unidos estão gerenciando mal a crise do coronavírus, sobretudo na comparação com a Coreia do Sul. Esses tropeços e erros podem servir de lição ao Brasil, país de dimensões continentais como os EUA.

O grande nó do momento nos EUA é a falta de testes em larga escala. Os números sobre testes americanos não são transparentes. Há estimativa de que pouco mais de 11 mil provas foram realizadas até agora. A Coreia do Sul faz 10 mil por dia.

Sem testar, é impossível ter um mapa preciso dos maiores focos de contágio e dos números de casos reais, dado fundamental para planejar o atendimento hospitalar e calcular a taxa de letalidade da doença. Uma política pública eficiente depende do mapa dos testes como um avião depende dos instrumentos para atravessar o nevoeiro.

Nesse sentido, a primeira medida que um país como o Brasil precisa tomar é providenciar milhões de lotes para testes de covid-19. Nos EUA, famosos e ricos têm aparecido entre as primeiras vítimas do coronavírus porque têm o dinheiro e o poder para fazer os testes que a população de modo geral não consegue realizar.

Outro problema da gestão da crise foi o erro do governo de subestimar o problema. Até o início desta semana, o vice-presidente, Mike Pence, que chefia a força-tarefa da Casa Branca, dizia que o risco de contágio era baixo para os americanos. Era chute, porque, sem testar, os casos estão subnotificados.

O presidente Donald Trump mudou o tom em pronunciamento na noite de quarta, admitindo uma gravidade que minimizara dois dias antes, quando, de novo, comparou o covid-19 à gripe comum. No pronunciamento, Trump falou em “vírus estrangeiro”, tentando terceirizar responsabilidades, e anunciou suspensão de voos da União Europeia para os EUA a partir da meia-noite desta sexta _com exceção para cidadãos americanos, residentes permanentes e mercadorias.

O fechamento da fronteira aérea sem consultar aliados tradicionais contrariou líderes europeus e quebrou uma cooperação internacional fundamental. Numa pandemia global, é um erro adotar a estratégia de cada país por si.

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De quarta para cá, governadores e prefeitos começaram a fechar escolas públicas e a cancelar grandes eventos a fim de evitar aglomerações. A NBA, liga nacional de basquete, suspendeu a temporada. A Disneylândia vai fechar os parques na Flórida. Autoridades também passaram a insistir na chamada “distância social”: evitar apertos de mãos, beijos na face e convivência física próxima com eventuais suspeitos de ter o covid-19.

Medidas dessa natureza também deveriam ser tomadas no Brasil. A ideia é desacelerar o fluxo de transmissão para impedir um colapso do atendimento hospitalar devido ao excesso de pacientes.

Aqui vai outra lição para o Brasil. Os EUA não têm um sistema público de saúde universal. Há debate sobre cobrar de seguradoras de saúde a cobertura do exame e do tratamento. Elas já toparam pagar o exame, mas não o tratamento.

O Brasil tem o SUS (Sistema Único de Saúde), que precisa ter sua capacidade de atendimento reforçada com mais verbas e profissionais de saúde. Do contrário, poderá haver colapso no atendimento se os casos crescerem exponencialmente, como é a tendência.

Por último, há os efeitos reais sobre a economia. Nos EUA, dois terços dos trabalhadores não têm pagamento por dias parados em caso de doença. Existe discussão sobre uma espécie de seguro para esses dias parados. Debate-se também socorro a grandes, médias e pequenas companhias.

Nos EUA, apesar de a economia viver boa fase, há enorme preocupação com o impacto sobre o emprego, a renda e o consumo.

O Brasil, cuja economia anda mal das pernas, precisaria de medidas anticíclicas. Ou seja, parar com a conversa de reformas estruturais e pensar em políticas públicas de curto prazo para minimizar o impacto sobre as empresas e os trabalhadores, especialmente os mais pobres.

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Aposta democrata

A campanha eleitoral democrata foi eclipsada pelo coronavírus. Os dois candidatos, o ex-vice-presidente Joe Biden e o senador Bernie Sanders, debaterão no domingo à noite na CNN, em Washington.

Biden virou o favorito. Sanders, melhor debatedor, aposta no confronto para criar um fato político que ressuscite suas chances de obter a indicação, algo que parece muito difícil no momento.

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Pagando o pato

Imagens do secretário de Comunicação de Bolsonaro, Fábio Wajngarten, foram exaustivamente exibidas na TV americana. O brasileiro, que tem covid-19, esteve com Trump no fim de semana passado na Flórida.

Até hoje, Trump nega ter feito o teste. Mas o noticiário diz que ele estaria preocupado devido ao contato que teve com o brasileiro. Ora, Wajngarten pode ter contraído o vírus em contato com americanos, inclusive Trump.

No fim de fevereiro, houve o encontro da CPAC, Conferência da Ação Política Conservadora, do qual participaram republicanos e assessores da Casa Branca. A comitiva brasileira que esteve recentemente na Flórida teve contato com pessoas que participaram da CPAC, evento no qual havia uma pessoa com covid-19.

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Monstro moral

Ao postar a imagem em que dá uma banana para dizer que resultou negativo o teste de coronavírus, Bolsonaro demoniza o contágio de covil-19. Essa atitude tende a gerar preocupação na população, pois o presidente trata o resultado como vitória contra o mal. Ora, contrair a doença não é uma maldição.

Mais. Bolsonaro ainda pode ser vítima do vírus, que não tem preferência ideológica tampouco partidária. A imagem do presidente pegou mal no exterior, mostrando mais uma vez o despreparo, a falta de empatia e a sua desumanidade.

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Mascarado fake

Se Bolsonaro usou máscara na live no Facebook, deveria tê-lo feito no pronunciamento gravado. Foi marketing baixo, pois não preservou a equipe de gravação do pronunciamento. A imagem caricata é mais uma vexame que envergonha brasileiros e mancha a reputação internacional do país.

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Jogada certeira

A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, anunciou a aprovação de uma lei para garantir testes gratuitos para todos, inclusive para quem não tem seguro-saúde. “Testing, testing, testing (testar, testar, testar)”, ela disse.

Está certa ao se antecipar aos republicanos do Senado e ao presidente Donald Trump, que tinha pronunciamento previsto para as 15h (hora de Brasília) de hoje. Segundo a imprensa americana, Trump deve declarar estado de emergência, o que indicaria medidas mais duras e maior liberdade para gastar dinheiro no combate ao coronavírus.

Ouça o comentário feito hoje no “Estúdio CBN”:

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